Nacionalismo performático: Capivaras de combate e elfos capoeristas


Isso aqui são meus pensamentos sobre algo que nomeei Nacionalismo performático. Porque nesse aninhos consumindo rpg e muita grana é algo que encontro bastante e muitas vezes colocado como uma coisa boa e comendável.

Mas pra falar sobre isso eu preciso explicar né? O que eu vejo como Nacionalismo performático é "uma forma de exibir um falso orgulho da sua nação e/ou cultura com o objetivo de ganhar engajamento".

Falando pro rpg é bastante pegar a representação brasileira e só usar como uma fantasia porque é comercialmente viável, você não faz o cavaleiro de capivara porque vai fazer algo legal com isso, mas só porque aparentemente simboliza o Brasil então as pessoas vão comprar porque "olha é brasileiro" e você vai ganhar seus tapinhas nas costas por ter representado a nossa cultura.

Mas o que você fez de verdade? Você representou a gente? Ou apenas o aspecto mais comercial da nossa cultura pra vender? Se for isso, você só tá usando a cultura brasileira como maquiagem de palhaço esperando risada, cadê seu verdadeiro amor pelo Brasil? Você pode incorporar a vivencia brasileira, você pode trazer o Brasil além de futebol, carnaval, capoeira e capivara. Mas muita gente não vai, porque não vende, não ganha pontinho como representante do Brasil no mercado.


 

Mas o que fazer? 

Desculpa o que é dito em cima, é meio que um desabafo, mas aqui é Sheep fantasy então eu não só reclamo, eu dou dicas inúteis!!! 

 Pra evitar ser performático, não encare trazer coisas brasileiras como uma checklist pra marcar pra poder dizer "esse sistema é br" porque ninguém pode negar sua nacionalidade então não tem que ficar se provando e fazer design aonde você tá só tapando buraco é buxaaaaa! Torne a cultura a parte do sistema, aventura ou outra coisa que sua mente perturbada pode criar, uma das partes mais importantes pra conseguir fazer é pesquisa, o quanto você sabe da nossa cultura além de estereotipo? digamos que vai fazer um rpg de jrpg (que muitas pessoas não considerariam brasileiro) você sabe qual a historia dos jrpgs no Brasil? você sabe que a Tectoy que foi uma grande empresa de jogos brasileira trouxe Phantasy star em 1987? Você sabe que passou na televisão "Fly o pequeno guerreiro" que é um desenho de dragon quest que é um dos jrps mais famosos do mundo foi dublado em 1991? 

Ou vamos falar do clássico "elfo capoeirista" o quanto você sabe da capoeira além do estereotipo "luta de dança"? Quais estilos você conhece? O quanto você vai incorporar da capoeira pra não ser só outro personagem que bate sem arma? você pelo menos sabe que tem uso de arma branca em certas vertentes da capoeira? Ou você vai pegar o monge do seu d&d da vida e botar a maquiagem de palhaço brasileira pra ganhar tapinha nas costas? Porque isso não não é muito diferente dos gringos que consideram a gente "futebol, carnaval e praia" ou o que fazem com o México de tudo ser com o filtro amarelo.

Consuma, viva seu pais antes de tudo ou sei lá sai a rua e entende como é a vida de um morador de rua daqui, a vida de uma travesti, a vida de uma mãe de santo, a vida de um pedreiro ou qualquer pessoa que anda nessa terra que a gente chama de Brasil, não adianta você querer ser a descolonizada usando só coisa que todo mundo vende que é brasileiro (capivara tem na droga da América do sul quase que INTEIRA e um monte projeto usa quase como se fosse chaveiro pra dizer que projeto é Brasileiro) se tudo que monta seu repertório e sua vivencia é de fora. 

Não digo que você se torna menos brasileira ao fazer isso, longe disso, mas você também não se torna mais, então porque só usar tudo isso de fantasia pros outros verem?

 


Calma mas porque tudo isso?

Meu descontentamento é por duas coisas, a primeira é que vejo muito acontecendo de coisa ruim ser entregue e as pessoas consumirem com sorriso na boca porque é brasileiro — sendo que muitas vezes é uma versão estereotipada ou só rasa com pouco carinho e empenho —  e a segunda é que em resposta a isso surge bastante o gatekeep do que é rpg brasileiro, por exemplo eu não gosto de tormenta20, nem do cenário e nem do sistema mas não tem como negar é brasileiro pra caralho, que seu mundo "meio anime meio medieval" que bebe muito do que passou na televisão e revistas brasileiras na época de sua criação, junto a todo esse role de adaptar tudo em cima de tudo se tornando essa "fantasia-amoeba-marrom" acaba sendo um reflexo enorme das origens do hobby no Brasil quase sendo o cinema marginal do rpg (referencias culturais de qualidade aqui). 

É um nacionalismo que vai tão pra frente que se torna vira-latismo — você só é brasileiro se bate esses checkpoints que colocamos aqui — mas os mesmos parâmetros não são colocados pra obras de outros países, fabula ultima é um rpg italiano pra todo mundo mas sua produção em grande parte foi em inglês e não é um rpg de macarrão e vinho mas sim um rpg sobre jrpgs, que não sei se você sabe mas o J é de japonês e não é um I de Italiano com a perna torta.

Esse aqui foi mais uma reflexão que eu queria colocar pra fora, encare como quiser, me prove errada se quiser, eu vou estar comendo grama BRASILEIRA aqui.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Sheep fantasy: Ideias bobas vindas de uma vontade de fazer o que ama

Liminal Order, meus processos na criação de um hack pra mestrar Ordem no meu estilo